sexta-feira, 8 de março de 2013

AS MÃOS DE JEANNE-MARIE:

*Jeanne-Marie, militante operária combatente na Comuna de Paris. Enquanto
todos os jornais reacionários da época (1871) apregoavam as mulheres da
Comuna como "animais", Rimbaud escreve este poema, um líbelo à liberdade
das mãos de uma operária parisiense em estado de fúria. A estas mulheres, e
às tantas outras que hoje ainda lutam pela retomada da poesia, uma grande
vida (e não apenas um grande dia)!

AS MÃOS DE JEANNE-MARIE:

Jeanne-Marie possui mãos fortes,
Sombrias, que o verão marca.
Mãos pálidas como mãos mortas
- São as mãos de Joana D’Arc?
Conhecem cremes morenos
Sobre sua pele nua?
Teriam afogado luas
Em fundos lagos serenos?
Sorveram o ar de céus bárbaros,
Outrora em calmos instantes?
Ou enrolaram cigarros?
Traficaram diamantes?
Em ardentes pés de Madonas
Fizeram secar as flores?
É o sangue das beladonas
Que as suas palmas colore?
Essas mãos caçam pequenos
Dípteros, de asas azuis,
Que bebem néctar e luz?
Mãos que decantam venenos?
Ah, que sonho as arrebata
Nessa pandiculação?
Um sonho raro da Ásia,
Dos Khenghavars, do Sião?
- Jamais venderam laranjas;
Nem cultuam deuses gregos:
Nem nunca levaram fraldas
De gordos meninos cegos.
Mãos que não são de mimos;
De operária em fundição,
Que acende, ao calor da usina,
Um sol ébrio de alcatrão.
São mãos que se amoldam fáceis
E a ninguém fazem mal.
São mãos fatais como máquinas,
Mais fortes que um animal!
Como fornalhas acesas,
Fazem arder corações.
Sempre entoam Marselhesas,
E nunca rezam orações!
Vosso pescoço, madames,
Apertarão até o fim!
Senhoras de mãos infames
Lambuzadas de carmin.
Mas essas mãos amorosas
São muitas vezes cruéis.
E nas falanges formosas
O sol coloca rubis!
A mancha que o povo deixa
Em seu dorso imaculado
Faz que o homem revoltado
Fervorosamente a beije.
Comovem-se encantadoras
Ao sol de amor carregado;
Ao som de metralhadoras
Através Paris sublevada!
Muita vez, em vossos pulsos
- Mãos sacras que, de ilusões
Os meus lábios embriagam -
Grita o metal dos grilhões!
E é um Sobressalto estranho,
Que nos sacode e dá medo,
Quando ao clarear-vos, mãos de anjo,
Fazem-vos sangrar os dedos!


Arthur Rimbaud, 1871.

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