quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Bilhete antropofágico 02: porque o proletariado deveria ter comparecido na Semana de Arte Moderna de 1922

Há 92 anos rolou um dos maiores maremotos culturais da História brasileira: a Semana de Arte Moderna de 1922 foi o correspondente estético de um ano que consistiu num verdadeiro forrobodó; foi um vendaval que quase azedou a política do café com leite e toda corja de barões. É verdade, muitos mitificam a Semana esquecendo-se de que os rebeldes modernistas tinham telhado de vidro, pois eles próprios viviam no seio da classe dominante. Entretanto, isto não tira em nada o valor transgressor de uma patota de escritores e artistas que acertaram os ponteiros com a grande rebelião das vanguardas. A influência, apesar de tardia, do futurismo na literatura, do expressionismo e do cubismo nas artes plásticas, não fez feio numa São Paulo ultra provinciana e cheia de frescuras solenes.  Mas, ainda assim, estamos falando de uma revolução de salão, isolada das lutas do movimento operário.
  Em 1922 os anarquistas mandavam ver, inclusive no âmbito artístico(lembremo-nos que havia um teatro operário no Brás...).  No entanto, vislumbramos uma situação tremendamente esquizofrênica: a arte dos anarquistas era atrasada/tradicional e a arte revolucionária do modernismo feita por gente bem abastada(que paradoxo histórico mais desgraçado!) Foi em 22 ainda que os ventos revolucionários trazidos pela Rússia de 1917, colocaram em nosso meio as ideias marxistas, levando quase que por consequência á fundação do Partido Comunista Brasileiro. E ainda assim os modernistas não saiam dos salões, demorando quase uma década para que a luta de classes estivesse no horizonte de Oswald de Andrade, por exemplo. É sempre muito divertido escandalizar a classe média, mas se a nossa vanguarda artística estivesse ligada aos trabalhadores, que visão seria o Teatro Municipal de São Paulo cheio de bandeiras negras e vermelhas durante a Semana! Portanto, sem desmerecer seu valor de inovação e rebeldia , os modernistas da Semana erraram feio ao permanecerem na aba dos barões e distantes do proletariado. Já imaginaram se o nosso modernismo entrasse na mesma piração dos futuristas russos e aderisse ao movimento operário revolucionário? Seria tirado boa parte do pó de café caso eles decidissem vestir a blusa amarela de Maiakóvski.   


                                                                 Turma Terceira Dentição

Nenhum comentário:

Postar um comentário