sábado, 1 de novembro de 2014

Os artistas e a militância comunista:

Quando um poeta ou um pintor decidem tomar parte em uma organização política de esquerda, é natural que isto influencie (diretamente ou indiretamente) o seu trabalho. Mas este raio de influência, não pode gerar a confusão teórica que submete o processo criativo espontâneo a uma atividade racionalista, que destrói a natureza libertária da arte(insisto mais uma vez nesta questão). Chega a ser compreensível quando um artista militante aniquila a pesquisa estética em detrimento de um programa partidário: vivemos numa sociedade na qual a classe dominante encara o engajamento artístico enquanto " crime cultural ", sendo o artista que toma partido nas lutas sociais alvo de marginalização. Se a burguesia abomina as necessárias(e progressistas) relações da arte com a política, para o militante de esquerda deve-se realizar uma arte politizada. Porém, se um artista apresenta-se como revolucionário, ele precisa compreender claramente a dimensão revolucionária da arte e não confundi-la com castrações partidárias.
 Lembremo-nos aqui do embate que Pierre Naville colocou para o movimento surrealista na França dos anos vinte. Naville, membro do grupo surrealista e um dos fundadores da Oposição de Esquerda em território francês, afirmava em seu livreto A Revolução e os Intelectuais, redigido entre 1925-26, que o surrealismo deveria assumir uma posição política " definida ": ou os surrealistas insistem na revolução do espírito e na sua natureza anárquica ou optam pelo proletariado e consequentemente pela disciplina política do marxismo. Mas por que considerar uma dimensão e descartar a outra? Não seriam elas, no terreno cultural, complementares na luta contra a sociedade burguesa? Era exatamente isso que André Breton pensava. Breton e outros surrealistas, que já eram próximos das ideias comunistas, concordaram em parte com os argumentos de Naville, deixando claro que o movimento surrealista diante de sua adesão ao comunismo, não poderia abrir mão das especificidades do seu programa. Este debate somado a uma série de iniciativas políticas dos surrealistas, acarretaram em cisões no movimento (Naville por exemplo, afastou-se do surrealismo). Breton não cessaria de defender que o surrealismo trabalha pela revolução socialista, mas pelos seus próprios meios: as sondagens do inconsciente e as pesquisas expressivas contribuem significativamente para dinamitar a ordem burguesa.
 Este debate dos surrealistas ocorrido no século passado, é um exemplo histórico útil para o jovem artista tomado pela ética revolucionária do comunismo hoje. Se ele deseja escrever sobre as paisagens de um sonho ou sobre a miséria dos trabalhadores(e ambos os temas permitem uma abordagem revolucionária na obra de arte), ele deve faze-lo com liberdade total, sem a interferência de um partido político. Ao optar pela classe trabalhadora, este artista não precisa abandonar suas inquietações pessoais, mas compreender que estas últimas estão pela sua lógica interna, a serviço da revolução. 


                                                                               Afonso Machado

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