quarta-feira, 23 de abril de 2014

A produção artística das comunidades é uma alternativa aos centros de poder cultural:

Fiquei de bode quando um jovem me disse que não sabia se levava a sério ou não o seu futuro(ah, as ladainhas sobre carreira) enquanto " artista ". Tudo porque ele não poderia  ingressar agora em alguma faculdade aonde " se ensina a ser um profissional do mundo da arte ". Esse sujeito é um ótimo escultor e um grande romancista em potencial, mas precisa trabalhar em alguma área que lhe forneça a grana para integrar o dinheiro da família de trabalhadores. Qual é o grilo? Trabalhe como operário para viver, trabalhe/milite como artista para gritar! É nojenta a mentalidade colonizada que defende o artista a partir do reconhecimento de alguma forma de autoridade, inclusive acadêmica.  Não tenho dúvidas de que fazer faculdade de letras, artes visuais, artes cênicas, cinema, etc e tal, pode ser de grande ajuda na formação artística de alguém(bons professores, estrutura para pesquisar, sim, é bom). Mas a pergunta é: será que isto é indispensável? É determinante? Será que a existência do artista se dá pelo aval de algum centro de poder cultural, como as universidades?; ou pior ainda: pelo mercado, a quem as universidades de hoje estão submetidas? Pessoalmente eu acredito que todos nós somos artistas em potencial e que é preciso nos apropriarmos das fontes, dos meios, para criarmos manifestações que assumam posições contrárias ao Estado capitalista.
  Aqui neste blog a gente sempre utiliza alguma referência histórica para dar botinadas na cultura dominante do nosso tempo. Neste meu textinho de hoje, faço questão de recordar o exemplo dos escritores e dramaturgos anarquistas do Brasil do início do século passado. Eles não estão nos grandes manuais de literatura e nem são discutidos pelas grandes companhias teatrais. Sorte deles! Os caras eram muito livres como artistas e também muito comprometidos com o movimento operário, para se tornarem celebrados! Estou falando de artistas operários, que enquanto militantes anarquistas, escreviam de acordo com a realidade do proletariado. Gente como José Oiticica, Pedro Cattalo, Astrojildo Pereira (futuro militante comunista),  Avelino Fóscolo, Guglieco Marroco, Gigi Damiani e muitos outros autores libertários ensinam a dizer não a qualquer forma de autoridade e ao mesmo tempo valorizar as capacidades criativas dos trabalhadores. Tendo isto tudo por referência, as comunidades precisam continuar a intensificar a sua produção cultural. Um próximo e valioso passo é a intersecção destas vivências culturais entre bairro, escola, conselhos populares e meios de comunicação próprios.
 Gostaria de dizer ao meu jovem amigo que ele pode estudar e trabalhar naquilo que quiser. Mas isto não o impedirá de ser um artista libertário. Um artista sem cabresto e que milita pela sua comunidade.


                                                                                       Marta Dinamite

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