sexta-feira, 4 de abril de 2014

Os rumos estéticos após o transe:

Neste próximo sábado exibiremos, dentro do ciclo Revisão Crítica do Cinema Novo, um filme extremamente oportuno: Terra em Transe(1967), de Glauber Rocha. Este longa que é um divisor de águas da nossa cinematografia, ainda proporciona efeitos perturbadores na realidade política e na práxis da arte. Sem sombra de dúvida uma obra cujo impacto estético exprime a crise da era Jango, o golpe militar e a necessidade de buscar pela arte novas formas de comunicação, assumindo posições radicais sobre a sociedade brasileira. Perante os 50 anos do golpe de 64, a esquerda relembra as feridas, a extrema direita celebra a barbárie, mas uma grande maioria de trabalhadores e estudantes não fazem a menor ideia das implicações repressivas da ditadura militar(1964-1985). Se por estes dias que correm a memória do golpe é evocada, exibir Terra em Transe não é hoje apenas um gesto circunstancial, pois sua violência poética ainda nos leva á encruzilhada das estratégias contra a burguesia brasileira.
  Tanto em 1967 quanto em 2014, o filme parece suscitar dentro da esquerda a necessidade de repensar orientações políticas e as potencialidades simbólicas da criação artística. O caráter febril do personagem Paulo(numa tensão entre Lautréamont e Che Guevara), a demagogia de Vieira e a loucura fascista de Diaz estão estruturados num quadro de desilusão e desespero político diante da frágil base operária legada pelas alianças entre a classe trabalhadora e a classe dominante. Se foi assim nos anos sessenta com o colapso do pacto populista, hoje estas alianças permanecem e mal se sustentam num momento em que a inflação corrói a economia e o governo aliado aos capitalistas, procura deixar a população em transe com a Copa do mundo. Já o transe que Glauber nos mostra, é uma experiência de choque contra as estratégias estéticas demagógicas da arte revolucionária janguista. Dentro de uma proposta Épica, Terra em Transe carnavaliza a estética brechtiana extraindo signos fundadores da identidade brasileira, estabelecendo a síntese histórica entre o absolutismo palaciano dos tempos coloniais com a modernidade das telecomunicações dos anos sessenta, o samba, o jazz, as metralhadoras e a miséria do proletariado. 
 Enquanto setores da esquerda gastavam o seu latim stalinista acusando o filme de " divisionista " e " extremista "(a nítida menção á luta armada, ás guerrilhas do terceiro mundo...), e a direita acusava o filme de subversivo, toda uma nova explosão artística que negava o didatismo e a prudência das manifestações artísticas do populismo, pedia passagem: no mesmo ano do filme ocorre também a montagem da peça O Rei da Vela(escrita por Oswald de Andrade nos anos trinta e montada pelo Teatro Oficina), o crescente escândalo em torno da anárquica (anti)arte ambiental  de Hélio Oiticica e  a eletricidade da moderna música popular nas composições de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Como já vem sendo amplamente debatido pela historiografia das últimas décadas, toda esta arte violenta , provocadora e alegórica deu origem ao movimento tropicalista. De fato esta produção afinada com a modernidade artística(que nega uma certa  " arte de escoteiro "), cumpriu uma missão libertária, mas teria ela se comunicado com o proletariado? Se esta comunicação foi impossível devido á intensificação repressiva da ditadura com o AI-5, a partir da Abertura  política o assunto não recebeu a atenção necessária(pelo menos por boa parte da esquerda). Hoje em dia, como podemos pensar/praticar uma arte revolucionária pós-tropicalista? Feitas as revoluções estéticas, tudo indica que na cooptação mercadológica das heranças contestadoras, setores " intelectualizados " da atual classe média estão imersos no fetichismo pós-moderno que consome, inclusive, " clássicos do tropicalismo ".   
Terra em Transe inaugura a crise das formas convencionais da arte de contestação política. Mas Glauber, mesmo em suas contradições, nunca abriu mão da necessidade de uma transformação política radical. Hoje, quando a História revela mais uma vez os erros das alianças entre classes, toda a herança das revoluções estéticas do final dos anos sessenta precisa ser incorporada á nova arte das periferias brasileiras. É nossa missão apresentar e debater filmes como Terra em Transe junto á classe trabalhadora; só assim poderemos politizar e ampliar as novas estéticas surgidas em torno da juventude proletária. Seria esta uma atitude de tipo paternalista, que avizinha-se da cultura do pré-golpe? Nada disso: queremos arrancar obras como Terra em Transe dos limites da classe média. Afinal, a efervescência artística da conjuntura de 68 não pode ficar dentro de um público reduzido. Oferecer munição simbólica não é caridade mas um ato comprometido com a ruptura cultural/política.  É preciso urgentemente repensar os rumos estéticos para um projeto político revolucionário.


                                                                          Afonso Machado 

FILME: Terra em Transe

DIREÇÃO: Glauber Rocha

ANO: 1967

LOCAL DE EXIBIÇÃO: Museu da Imagem e do Som de Campinas

DIA: 5/04

HORÁRIO: 19:30

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